A Páscoa e a controvérsia em torno da Elevation Church

A polêmica sobre a não utilização da expressão "sangue de Jesus Cristo" nos convites de Páscoa

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Recentemente, a Elevation Church e o pastor Steven Furtick se viram envoltos em controvérsias após uma entrevista que revelou que a igreja não utiliza palavras como “ressurreição”, “Calvário” ou “sangue de Jesus” em seus convites de Páscoa. Durante parte da entrevista, Shearer explicou que a igreja evita usar linguagem que “imediatamente faça alguém se sentir excluído”, especialmente para um evento como o Domingo de Páscoa.

“Para nós, o mais importante na Páscoa é convidar pessoas para a igreja. Isso significa alcançar pessoas que estão longe de Deus. Então, não vamos usar palavras como ‘Calvário’, ‘ressurreição’ ou a frase ‘o sangue de Jesus’. Não usaremos linguagem que faça alguém se sentir imediatamente excluído.”, disse Shearer.[1]Confira o vídeo completo no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=0bJv5pjo5u0

Os comentários de Shearer viralizaram na internet, com muitos usuários no Instagram e TikTok criticando a igreja por “suavizar” o cristianismo.

A adulteração da mensagem do evangelho como forma de “atrair pecadores”

Não é de hoje que vemos a mensagem do evangelho sendo adulterada por diversas comunidades que se dizem evangélicas. Embora não seja tão abordada, a grande verdade é que o público evangélico vive uma grande crise: a imersão em um evangelho falso, terapêutico, vigoroso produtor de falsos crentes e sincrético.

O movimento evangélico terapêutico

Não há muito tempo eu escrevi um artigo aqui no EvangelhoEterno.Org sobre o Deísmo Moralista Terapêutico. Não irei entrar em detalhes sobre o que o termo significa, visto que já tem este artigo escrito aqui no Blog. No entanto, quero dar ênfase à característica terapêutica das comunidades evangélicas, pois é o escopo do presente artigo.

O termo terapêutico é empregado pelo sociólogo Christian Smith para expressar o objetivo central da crença que é o prazer, o estar bem consigo mesmo. Nesta vertente, não há necessidade de nenhum esforço, nem mesmo qualquer sacrifício. A ênfase é: “fomos criados para sermos felizes e não para nos sacrificar”.[2]Tim Keller, em sua obra Deuses Falsos, publicada pela editora Vida Nova, também toca neste tema. cf. Keller, Timothy”. Deuses Falsos: as promessas vazias do dinheiro, sexo e poder, e a única … Continue reading

Michael Horton, ao parafrasear Denton Smith, resume bem o que é o deísmo moralista terapêutico: Deus é o Criador; deseja que as pessoas sejam boas, educadas e justas umas para com as outras; o objetivo da nossa vida é ser feliz e sentir bem consigo mesmo; em nossa vida Deus não precisa se envolver particularmente, salvo quando um problema precisa ser resolvido; as pessoas boas, assim, irão todas para o céu quando morrerem.[3]Smith, Christian; Denton, Melinda Lundquist. Soul Searching: The Religious and Spiritual Lives of American Teenagers. Nova York: Oxford University Press, 2006, apud Michael Horton, Cristianismo sem … Continue reading

Mudar a mensagem para atrair pecadores?

A opção da Elevation Church de não utilizar palavras como “ressurreição”, “Calvário” ou “sangue de Jesus” em seus convites de Páscoa revela uma nítida adulteração da mensagem do evangelho. A alegação de que isso tudo se dá para evitar que as pessoas, de certa forma, não se “ofendam” ou não se sintam “excluídas” revela que a liderança da Elevation Church não confia que é Deus quem salva os pecadores.

Quando ouço declarações como esta, afirmando ser necessário adaptar a mensagem para abrandar alguns termos que podem parecer “pesados” ou mesmo “ofensivos” a algum grupo de pessoas, em minha mente vem imediatamente o seguinte texto:

Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas.

(2 Timóteo 4.3,4)

Assim, a adulteração da mensagem do evangelho de Jesus Cristo é absurda e provém da mente de Satanás, pois o objetivo dele não é, necessariamente, esvaziar as igrejas, mas adulterar a genuinidade da mensagem, cujo resultado é a produção de “falsos crentes”, pessoas não regeneradas pelo Espírito Santo. Tais pessoas vivem anestesiadas crendo num deus feito à sua própria imagem e semelhança; um deus que se adequa ao conforto do seu pecaminoso coração.

O Contexto da Festa da Páscoa

A Páscoa é uma festa judaica, revelada por Deus nas Escrituras Sagradas. O povo de Israel estava na condição de escravo no Egito, sob o domínio do Faraó. Deus havia prometido aos patriarcas (Abraão, Isaque e Jacó) que daria ao povo a terra de Canaã. Portanto, a situação de escravidão em que se encontravam parecia ser totalmente contrária às promessas de Deus. Se Deus é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, então Ele precisa cumprir sua promessa: a terra prometida. Após anos de escravidão, o povo clamava por libertação; Deus ouviu o clamor do povo. Assim, Deus iniciou a execução do seu plano de resgate do povo de Israel do Egito.

Deus designou Moisés para liderar o povo na saída do Egito. Moisés foi o portador da Palavra de Deus e proclamou a Faraó que o povo precisava deixar o Egito para servir ao Senhor. No entanto, Faraó recusou-se a deixar o povo sair. Em resposta a essa atitude, Deus enviou ao Egito o seu divino juízo, conhecido como “As Dez Pragas”. A última praga no Egito foi a Morte dos Primogênitos. Nessa ocasião, Deus revelou a Moisés a instituição de uma celebração, a Páscoa.

Como ocorreu a celebração da Páscoa

No primeiro mês do ano, que é o principal dos meses para o povo Hebreu, ocorre a Páscoa. O povo de Deus deveria seguir estas instruções: cada pessoa deveria escolher um cordeiro para sua família; o cordeiro deveria ser sem defeito, macho e ter um ano de vida. Assim, o cordeiro deveria ser sacrificado e seu sangue aplicado nas ombreiras e na verga das portas das casas dos Hebreus. Após isso, o cordeiro deveria ser assado ao fogo e a família deveria se alimentar dele junto com pães asmos (sem fermento) e ervas amargas. O povo hebreu deveria comer a refeição prontos para sair do Egito, vestidos e calçados. Deus ordenou que o cordeiro fosse comido dentro de casa, não fora dela, e que nenhum osso fosse quebrado! (Êxodo 12).

Jesus é o Cordeiro Pascal

Quando examinamos esta história bíblica, fica claro para nós, o povo da Nova Aliança, que temos em nossas mãos a revelação final de Deus (a Bíblia, a Palavra de Deus), de que Jesus é o próprio Cordeiro pascal. Isso se deve ao fato de que o Novo Testamento esclarece essa verdade, aplicando diretamente a tipologia bíblica do cordeiro a Cristo Jesus, o Filho de Deus.

Ao ver Jesus, João Batista, o último profeta do Antigo Testamento, proclamou: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1.29). Paulo, em sua primeira epístola aos Coríntios, escreveu: “Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado” (1 Coríntios 5.7). Gloriosa verdade é esta: Jesus, o Filho de Deus, se encarnou para assumir a condição de cordeiro, para carregar sobre si os nossos pecados e nos livrar da condenação de Deus. Assim, Jesus, o inocente, morreu em lugar dos pecadores. Jesus é tanto a oferta quanto o ofertante: Ele se apresentou diante do Pai em nosso lugar.

A Ressurreição de Cristo Jesus como o ponto central da nossa esperança

A morte em si não tem o poder de comunicar vida. Cristo Jesus não apenas sofreu na cruz como o Cordeiro de Deus, mas, ao terceiro dia, no domingo, ele ressuscitou dos mortos. Este é o cerne da verdade do evangelho — Cristo morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para que pudéssemos ser justificados diante de Deus. Assim, Cristo compartilhou conosco a sua própria vida. O evangelho não transmitiria nenhuma mensagem de esperança se Cristo Jesus não tivesse ressuscitado.

Em João 20, é relatado que no domingo, no primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo e, ao chegar lá, viu a pedra removida da entrada. Maria correu e anunciou isso aos discípulos, e Pedro e João foram em direção ao sepulcro para verificar. Eles constataram que Jesus não estava no sepulcro. Assim, a Escritura afirma que, neste momento, ao observarem o túmulo vazio, eles creram na ressurreição e voltaram para encontrar os demais discípulos. No entanto, Maria Madalena permaneceu chorando à porta do túmulo.

Maria Madalena como testemunha ocular da ressurreição de Cristo

Nesta ocasião, Maria viu dois anjos que estavam no local onde o corpo de Jesus havia sido colocado. Eles perguntaram: “Mulher, por que choras?”. Ela respondeu sinceramente: “Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram”. Ao olhar para trás, Maria viu Jesus em pé, mas não o reconheceu, pois pensou que fosse o jardineiro. Quando Jesus disse: “Maria”, ela exclamou: “Mestre!”. Jesus falou diretamente a ela: “Não me detenhas!”, significando “não me segure”, pois Maria provavelmente o abraçou firmemente, desejando tê-lo sempre perto novamente.

Ao comentar essa passagem, William Hendriksen a traduz da seguinte forma: “Não pense, Maria, que segurando-me assim você me terá para sempre perto de você! Para termos uma comunhão ininterrupta e eu estar sempre perto de você, eu preciso subir ao meu Pai e enviar o meu Espírito”. Jesus não impede Maria de abraçar seu corpo ressuscitado, mas corrige a ideia de que é necessário abraçá-lo dessa forma para tê-lo sempre perto; ele a ensina com amor: “É necessário que eu suba para meu Pai, mas, antes, vai anunciar aos seus irmãos esta verdade!”.

A Ressurreição de Cristo é a consolidação da família de Deus

Jesus fala a Maria: “vai aos meus irmãos e diz a eles que eu subo para o meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus!”. Jesus não mais chama seus discípulos de discípulos ou de amigos, Jesus os chama de irmãos. Aqui está um ponto importante na mensagem que Maria deveria anunciar: Cristo Jesus não é apenas o nosso Deus, o nosso Senhor, mas o nosso irmão. Jesus é o Filho de Deus por natureza; nós fomos feitos filhos de Deus por adoção, por meio de Jesus Cristo. Assim, este é o ponto! Jesus manda que ela anuncie que agora os discípulos foram adotados como filhos de Deus, mediante a morte e ressurreição de Jesus Cristo.

Nossa missão nesta Páscoa

Nossa missão neste domingo de Páscoa é anunciar a morte e ressurreição de Jesus Cristo, o nosso Cordeiro Pascal. Meu desejo é que nós, os cristãos, não venhamos a procurar adaptar a mensagem do evangelho de Jesus ao gosto do “freguês”. Se a mensagem do evangelho ofende as pessoas é porque elas precisam do novo nascimento; este é um milagre que somente o Espírito Santo pode realizar no interior do pecador. No entanto, Deus decretou que é pela pregação genuína do evangelho é que os pecadores são chamados por Deus para uma nova vida.

A adulteração da mensagem do evangelho de Jesus Cristo é absurda e provém da mente de Satanás, pois o objetivo dele não é, necessariamente, esvaziar as igrejas, mas adulterar a genuinidade da mensagem, cujo resultado é a produção de “falsos crentes”, pessoas não regeneradas pelo Espírito Santo. Tais pessoas vivem anestesiadas crendo num deus feito à sua própria imagem e semelhança; um deus que se adequa ao conforto do seu pecaminoso coração.

Que você tenha coragem e não aceite a adulteração da mensagem do evangelho! Avante, igreja! Sempre avante! Que possamos olhar para o alvo, que é Cristo Jesus, nosso Senhor, a quem deveremos um dia prestar contas.

Referências

Referências
1 Confira o vídeo completo no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=0bJv5pjo5u0
2 Tim Keller, em sua obra Deuses Falsos, publicada pela editora Vida Nova, também toca neste tema. cf. Keller, Timothy”. Deuses Falsos: as promessas vazias do dinheiro, sexo e poder, e a única esperança que realmente importa. São Paulo: Vida Nova, 2018, 127 a 130.
3 Smith, Christian; Denton, Melinda Lundquist. Soul Searching: The Religious and Spiritual Lives of American Teenagers. Nova York: Oxford University Press, 2006, apud Michael Horton, Cristianismo sem Cristo. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p.35-36
Hudson Carvalho é Mestre em Divindade pelo Seminário Martin Bucer (São José dos Campos, SP), com ênfase em Teologia Histórica e Sistemática. Atua como pastor auxiliar na Igreja Reformada em Vila Velha, especialmente na parte de ensino.

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