Recipientes Masculinos da Graça de Deus – CPRC


Douglas J. Kuiper

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto1

Que Deus estabelece um alto padrão para os diáconos em 1 Timóteo 3:8ss., e que Deus supre sua igreja com homens que, por sua graça, alcançam esse padrão, já observamos.2 Agora devemos examinar o padrão mais atentamente. Quais são as qualificações para o ofício de diácono?

Fazemos a pergunta por três razões. Primeiro, visto Deus requerer que a sua igreja nomeie ou vote para o diaconato somente aqueles que são apropriadamente qualificados, devemos conhecer em detalhe quais são as qualificações. Segundo, aqueles que são atualmente diáconos devem saber que tipo de pessoas Deus espera que eles sejam e devem se esforçar para adquirir essas qualificações. Terceiro, toda a igreja deve encorajar seus oficiais a obterem essas qualificações, e orar para que Deus possa continuar a qualificá-los. Assim, devemos saber quais são as qualificações.

Neste artigo, começamos a responder a questão enfatizando duas coisas: primeiro, os diáconos devem ser os recipientes da graça de Deus; e segundo, eles devem ser do sexo masculino. Essas são as duas qualificações mais amplas para o ofício. Elas levam em conta categorias básicas nas quais Deus dividiu a raça humana – a de gênero e a de relacionamento espiritual com Deus.

Encontramos outras divisões básicas entre a humanidade: ricos e pobres, livres e escravos (manifesto hoje como empregadores e empregados), velhos e jovens. Enfatizamos veementemente que essas divisões não desempenham nenhum papel na determinação de quem pode ser um diácono. Seria nossa natureza colocar no diaconato homens da alta sociedade – os empregadores ricos, ao invés de trabalhadores simples e humildes; ou homens que possuem trabalhos prestigiosos, tais como políticos, advogados ou doutores. Poderíamos pensar que aqueles cujos trabalhos diários são o comércio ou o setor bancário seriam apropriados para o ofício, mais que aqueles cujo trabalho seja em outras áreas.

Contudo, nenhuma das qualificações dadas na Escritura nos apresenta qualquer razão para justificar tal pensamento. Deus não está preocupado com o exterior ou a posição social de alguém, mas com o seu coração e vida. Ele requer que os diáconos não sejam incrédulos ímpios, mas crentes piedosos, recipientes das graças espirituais. E ele requer que eles não sejam mulheres, mas homens.

Em dois lugares na Escritura Deus requer que os diáconos sejam homens que são recipientes das graças espirituais. Em Atos 6:3 lemos que os apóstolos dirigiram a igreja para procurar homens “cheios do Espírito Santo e de sabedoria”, em resposta ao que ela escolheu, entre outros, Estevão, “homem cheio de fé e do Espírito Santo” (Atos 6:5). E Paulo, em 1 Timóteo 3:8, diz que os diáconos devem ser “honestos, não de língua dobre, não dados a muito vinho, não cobiçosos de torpe ganância” – impossível de ser verdadeiramente cumprido por qualquer homem, exceto que Deus lhe conceda graça espiritual. Mas a passagem em 1 Timóteo 3 que é especialmente pertinente para o nosso propósito é o versículo 9, “guardando o mistério da fé numa consciência pura”.

De Atos 6:3, 5 e 1 Timóteo 3:9 encontramos três coisas que devem caracterizar um diácono.

Primeiro, ele deve ser o recipiente da graça divina – isto é, deve ser um filho de Deus salvo, possuindo o Espírito Santo, sabedoria, fé e uma consciência pura (limpa). Que ele deve ser um filho de Deus salvo significa que deve estar unido a Cristo por uma fé viva e verdadeira, e receber pela fé todos os dons e bênçãos que estão inclusos na salvação: perdão dos pecados e justiça imputada de Cristo, pela qual sua consciência é limpa; poder santificador para ser restaurado à imagem de Cristo; graça para perseverar em fé e piedade; e a esperança da ressurreição do seu corpo e da vida eterna. Significa que o Espírito deve operar nele, e o fruto do Espírito ser visto nele. Isto é, ao invés de se entregar à carne, ele deve possuir “amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança” (Gálatas 5:22-23). Ele deve ser alguém a quem Cristo uniu ao seu corpo, que recebeu o sacramento do batismo como um sinal e selo de sua entrada no pacto, e que é, portanto, um membro da igreja de Jesus Cristo como manifesta sobre a terra. E ele deve ter sabedoria para conhecer a vontade de Deus e dirigir sua vida em obediência à lei de Deus, e para a glória de Deus.

Ninguém negaria que todas essas características devem ser verdadeiras de um diácono. Para servir à igreja de Cristo no ofício especial, a pessoa deve ser um membro da igreja. Mesmo o mundo verá a sabedoria disso; uma pessoa não pode representar um Estado na legislatura estadual ou federal, se não vive naquele Estado. Ainda mais, considerando que Cristo concede graça espiritual através dos diáconos, o diácono deve ser alguém que recebe tais graças pessoalmente.

Segundo, ele deve ser o recipiente de uma medida especial da graça divina, não apenas tendo o Espírito Santo e sabedoria, mas sendo cheio de, totalmente permeado com o Espírito Santo e sabedoria. Em cada aspecto de sua vida – seus pensamentos, desejos, palavras e ações – deve ser evidente que o Espírito vive e opera nele. Os diáconos não devem ser meramente cristãos, mas cristãos fortes, “acima da média no desenvolvimento de sua vida espiritual”.3 A seguinte afirmação de Peter Y. DeJong também é pertinente: “Devemos pensar especialmente nessa conexão numa medida especial daquelas virtudes que são necessárias para o desempenho fiel e frutífero do seu ofício. Assim, em simpatia, bondade, interesse amoroso, hospitalidade e auxílio eles deveriam estar acima de reprovação, visto que devem representar a solicitude (consideração ou cuidado, DJK) do Salvador a todos que estão em necessidade”.4

Portanto, não é qualquer homem que recebeu a graça de Deus que pode servir no ofício. Por pelo menos duas razões, os líderes da igreja não devem escolher o elemento mais fraco, mas o mais forte. Primeiro, a força dos líderes da igreja determinará grandemente a força da própria igreja. Segundo, aqueles que devem lidar com o povo de Deus em suas fraquezas e enfermidades devem ser fortes, capazes de trazer uma palavra de conforto e assegurar o povo do cuidado amoroso de Deus por eles.

Em terceiro lugar, essas passagens mostram que o diácono deve ser consciente que recebeu tal graça, e mostrar essa consciência guardando (literalmente, “tendo”, mas no sentido do possuir e conservar consciente) o mistério da fé com uma consciência pura. Ele deve então conhecer a Escritura, as confissões e a doutrina Reformada, e não divergir da fé Reformada de forma alguma. Deve ser capaz, sem reservas, de assinar a “Fórmula de Subscrição”,5 na qual declara “sinceramente e em boa consciência diante de Deus” que crê de todo o coração e está “persuadido que todos os artigos e pontos da doutrina contidos na Confissão Belga e no Catecismo de Heidelberg” e nos Cânones de Dort “estão em pleno acordo com a Palavra de Deus”. Ele promete, além disso, “ensinar diligentemente e defender fielmente” essas doutrinas, e não contradizê-las de forma alguma; e declara que rejeita todos os erros que a confissão rejeita, particularmente o Arminianismo, e que está “disposto a refutar e contradizer” esses erros, pronto a ensinar a verdade, e a fazer sua parte para manter “a Igreja livre de tais erros”.6 Para prometer tudo isso, ele deve conhecer essas verdades!

Não somente deve ele conhecer tudo isso, mas deve também amar a verdade, confessando sua fé com a boca e coração, e mostrando mediante seu viver que está verdadeiramente convicto da verdade das Escrituras e da fé Reformada. Ele deve guardar o mistério da fé “em uma consciência pura” – objetivamente pura, sendo limpa da culpa pelo sangue de Cristo, e subjetivamente pura, experimentando o perdão dos pecados na forma de tristeza genuína por eles, e lutando para não fazer nada que polua sua consciência.

Todas essas idéias estão implicadas no diácono ser um recipiente da graça de Deus. Ele não meramente alega ter recebido a graça de Deus, mas sua vida demonstra a veracidade de sua afirmação de uma forma que todos possam ver.

Tal graça Deus opera nos homens e mulheres igualmente. Isso é o que Paulo quer dizer quando disse em Gálatas 3:28: “não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”.

Mas o ofício de diácono está vetado às mulheres. Um diácono deve ser um homem. Igrejas têm gasto muito tempo e energia debatendo se os ofícios estão ou não abertos às mulheres, e muitas têm violado a Palavra de Deus ao tentar usar a Escritura para justificar colocar mulheres nos ofícios especiais. Uma passagem violada por eles dessa forma é 1 Timóteo 3:11, que lemos assim na ACF: “Da mesma sorte as esposas sejam honestas, não maldizentes, sóbrias e fiéis em tudo”. O argumento é que a palavra “esposas” deveria ser traduzida na verdade como “mulheres”,7 e referir-se-ia às mulheres diaconisas. Concordamos que a palavra traduzida como “esposas” pode e freqüentemente significa “mulheres”; a KJV (no Novo Testamento) traduz essa palavra grega como “esposas” 92 vezes8 e “mulheres” 129 vezes.

Todavia, o texto não ensina que as mulheres podem ser diaconisas.

Que isso não pode ser usado para apoiar as mulheres serem postas no ofício de diácono é claro a partir da própria passagem. Um diácono deve ser marido de uma mulher, de acordo com o versículo 12. Embora explicaremos esse requerimento em maiores detalhes num artigo posterior, por ora devemos observar duas coisas. Primeiro, no versículo 12 a palavra “esposa”, a mesma palavra no grego que aparece no versículo 11, significa claramente “esposa” e não “mulher”. Um princípio sadio de interpretar a Escritura é que quando a mesma palavra é usada no mesmo contexto, ela deve ter o mesmo significado, a menos que seja absolutamente claro que o significado deve ser diferente. Usando esse princípio, devemos concluir que se no versículo 12 (o versículo mais claro) a palavra é “esposas”, então no versículo 11 (o versículo mais questionável, governado portanto pelo mais claro) a palavra é “esposas”, e não mulheres. Segundo, o versículo 12 não diz meramente que um diácono deve ter um cônjuge, deixando aberta a possibilidade que o diácono seja uma mulher, mas diz que os diáconos devem ser “maridos” de uma esposa. A palavra traduzida como “maridos” refere-se claramente a um homem. Uma mulher não pode ser um marido. Assim, Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, ensina explicitamente que um diácono deve ser um homem. Se o versículo 11 permite as mulheres serem diaconisas, então Paulo se contradiz, e o próprio Espírito também. Além disso, se as mulheres têm a permissão de serem diaconisas, não existe nenhuma boa razão pela qual uma lista especial de qualificações extras tenha sido dada para elas. Há boa razão, contudo, no fato das esposas dos diáconos deverem satisfazer certos critérios. Qual é essa razão veremos quando tratarmos esse requerimento em mais detalhe.

Três razões adicionais podem ser colocadas em suporte do argumento que Deus não permite que as mulheres sejam diaconisas. Primeiro, lembrando que o diácono é a contraparte no Novo Testamento do ofício de sacerdote no Antigo Testamento, observamos que somente homens tinham a permissão de ser sacerdotes no Israel do Antigo Testamento. Argüir que Débora e Hulda eram profetisas não ajuda ninguém aqui; nenhuma mulher jamais foi ou poderia ser uma sacerdotisa em Israel. A lei de Deus requeria que Arão e seus filhos ministrassem naquele ofício.

Segundo, quando o ofício de diácono foi instituído no Novo Testamento, os apóstolos mandaram a igreja encontrar sete “homens” (Atos 6:3). A palavra traduzida como “homens” não é a palavra geral que significa “seres humanos”, mas a palavra específica que significa “seres humanos do sexo masculino”. A igreja primitiva entendeu mui claramente que uma qualificação para o ofício era que esses fossem homens, e escolheu de acordo com isso. O fato que nenhum dos primeiros sete diáconos era uma mulher não foi devido a qualquer visão cultural de homens e mulheres, ou a alguma razão prática, mas ao claro entendimento da parte da igreja que as mulheres não eram para ser nem mesmo consideradas para esse serviço.

Terceiro, a razão pela qual nenhuma mulher pode servir no ofício na igreja é claramente ensinada na Escritura. 1 Timóteo 2:12-14, o contexto imediatamente precedente à passagem na qual as qualificações de presbíteros e diáconos são dadas, diz: “Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão”. Os fatos históricos são apresentados – a saber, que Adão e não Eva foi primeiramente formado, e que Eva e não Adão foi enganada pela serpente no Éden – são fatos imutáveis. A conseqüência é imutável também: a mulher não pode servir no ofício na igreja. Elas não podem ensinar! Então, não somente elas não podem ter o ofício de pastor, mas nem podem ter o ofício de presbítero ou diácono, pois esses dois ofícios envolvem ensino em certo grau. Além do mais, elas não podem usurpar de autoridade sobre o homem! Isso as exclui de ter algum ofício especial na igreja, pois toda a autoridade na igreja foi dada aos homens!

Deus não permitirá que uma mulher possua o ofício de diácono, jamais. É necessário que os diáconos na igreja de Cristo sejam homens.

Não teremos tempo para antecipar as objeções a essa posição, que o sexo de alguém é um fator para saber se alguém está qualificado ou não para o ofício. Afirmamos que a obediência à Palavra de Deus nessa questão não menospreza o lugar das mulheres na igreja, e não as priva de usar os seus dons recebidos de Deus para o bem da igreja. Tais argumentos do campo oposto não possuem peso algum. A questão é se Deus permite ou não que as mulheres sirvam nesse ofício. Argumentar que a Escritura permite que elas sirvam nele requer que a pessoa distorça a Escritura.

Recipientes masculinos da graça de Deus! Esse, geralmente falando, é o requerimento de Deus para os diáconos. Começaremos a analisar os específicos no próximo artigo, se Deus quiser.


1E-mail para contato: [email protected]. Traduzido em agosto/2007.

2

As Qualificações dos Diáconos (2): Um Alto Padrão

3Peter Y. DeJong, The Ministry of Mercy for Today (Grand Rapids: Baker Book House, 1963), page 93.

4

Ibid., page 93.

5

http://www.prca.org/subscription.html

6

Todas as palavras nas citações foram tiradas diretamente dessa fórmula, que pode ser encontrada nas costas de qualquer edição do Saltério, publicado pela Eerdmans of Grand Rapids, 1927 copyright.

7Como na ARC e ARA. (Nota do tradutor)

8Incluindo a passagem em questão. (Nota do tradutor)

Para material Reformado adicional em Português, por favor, clique aqui



Fonte: Covenant Protestant Reformed Church

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