Charles Grandison Finney: Reavivalista (3) – CPRC


Herman Hanko

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto1

Introdução

Charles Finney é geralmente considerado o pai do Segundo Grande Despertamento.2 Ele se tornou um ministro na Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos sem freqüentar nenhum seminário, e com apenas um curso superior incompleto. Permaneceu um ministro na Igreja Presbiteriana até o tempo em que se tornou professor de teologia no Instituto Oberlin, em Ohio. Um pouco antes de se mudar para Oberlin, demitiu-se da Igreja Presbiteriana e estabeleceu uma igreja Congregacional. Permaneceu um Congregacional pelo resto de sua vida.

É algo misterioso como ele conseguiu permanecer um ministro em boa estima na Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, pois Finney se apartou das doutrinas e credos da denominação em pontos significantes. Ele era, em sua posição doutrinária, um Pelagiano sem restrições – até onde prestou alguma atenção à doutrina, pois era indiferente para com as questões doutrinárias, e não tinha interesse por elas.

Sua vida girou em torno de reavivamentos. E sua reputação ainda hoje é de um grande reavivalista que trouxe despertamento para uma igreja morta. Ele desenvolveu uma doutrina de reavivamentos na qual alegava que os reavivamentos eram produzidos pelos homens, parecendo eliminar completamente a obra do Espírito Santo. Ele alegava que em seus dias o reavivamento poderia ser causado somente por ele – o que era, na realidade, verdadeiro. Quando ele foi para um cruzeiro no Mar Mediterrâneo, ou quando em três ocasiões diferentes foi para a Inglaterra, o reavivalismo na América desapareceu e as igrejas voltaram à letargia espiritual.

Ele desenvolveu um método de pregação reavivalista na qual a pregação emocional era dominante, e o banco dos ansiosos, o precursor dos convites ao altar, era o meio para forçar as pessoas a fazerem uma decisão imediata por Cristo.

Porque não é necessário mostrar como o Pelagianismo das visões de Finney é anti-bíblico, e porque Finney é especialmente conhecido por seu reavivalismo, meu propósito neste artigo se concentrará sobre a doutrina e o método errôneo do reavivalismo.

É claro que muitos defensores do reavivalismo apelam à origem divina de reavivamentos sobre o fundamento que não existe nenhuma outra explicação pelo que acontece num reavivamento, senão que se trata de uma obra do Espírito Santo. Tentarei engajar numa explicação religiosa e psicológica para o comportamento bizarro que frequentemente caracteriza os reavivamentos, ou mesmo para a procura em massa pela religião, que são supostamente frutos de reavivamentos. A histeria em massa explica muito isso, especialmente pelo que o país de Gales, famoso por seus reavivamentos, chama de hywl. Esse termo é usado para descrever o tom peculiar de voz e inflexão que um pregador reavivalista usa para estimular as emoções das pessoas, e produzir o que é verdadeiramente um estado hipnótico.

Hugh L. Williams escreve no British Reformed Journal, com respeito a Finney:

No primeiro quarto do século dezenove, chegou a teologia e a prática daquele arqui-Pelagiano Charles Grandison Finney, com suas “novas medidas”. Finney organizou o método do “banco dos ansiosos”, no qual novos convertidos eram exortados a vir à frente da reunião e fazer profissão de sua fé, uma prática que ainda caracteriza muito do evangelicalismo atual. Em adição, Finney foi capaz de desdobrar certas características pessoais que tinha desenvolvido: o estado verdadeiramente hipnótico, o discurso emocional prolongado, e a estigmatização de ministros e presbíteros como fracassados e hipócritas, pois suas igrejas eram (pelo padrão de Finney) “mortas”. Esse egocêntrico contagioso escreveu volumosamente, e sua literatura sobre “reavivamento” equivale a um manual de “como fazer.”

Minha preocupação neste artigo é a pergunta: os reavivamentos são bíblicos? Isto é, a Escritura dá sequer alguma indicação que o Espírito Santo opera numa forma reavivalista quando salva a igreja de Cristo? Nossa resposta a essa pergunta determinará toda a nossa atitude para com os reavivamentos.

 

Nenhum Reavivamento na Escritura

Se alguém tentar encontrar alguma evidência de reavivamentos acontecendo nos tempos bíblicos e registrados na Escritura, sua busca será fútil. A Escritura não dá nenhuma evidência aproximada de reavivamentos. Defensores de reavivamentos tentam mostrar que a Escritura contém registros de reavivamentos, ao apelar às reformas produzidas em Israel durante os tempos de Samuel (I Sm. 7:1-12) e as reformas que aconteceram durante os reinados de Asa (II Crônicas 15), Ezequias (2 Crônicas 29-31) e Josias (II Crônicas 34, 35:1-19). Mas há três razões pelas quais apelos a essas reformas são espúrios. 1) Elas não trazem nenhuma semelhança aos reavivamentos que acontecem em nossa dispensação. 2) Embora os reavivamentos sejam definidos como sendo visitações especiais do Espírito Santo, isso não poderia ter acontecido nos tempos do Antigo Testamento, pois, como a Escritura aponta para nós: “o Espírito Santo até aquele momento não fora dado” (João 7:39, ARA). 3) Israel era uma figura, não de uma determinada nação como os Estados Unidos ou o país de Gales, mas da igreja espiritual de Cristo. Dentro da nação, Cristo estava sendo transmitido. Deus preservou a nação mediante bons reis que trouxeram uma medida de reforma, de forma que Cristo pudesse vir na plenitude dos tempos. Mas tais reformas não têm nenhuma semelhança com reavivamentos.

Outros apelam ao Pentecoste como um reavivamento. Quão tolo é tal apelo! O Pentecoste foi o tempo quando o Cristo que subiu derramou seu Espírito sobre a igreja pela primeira vez. Aquele derramamento do Espírito não foi acompanhado por comportamento bizarro e conduta estranha, mas por sinais que falavam da obra do Espírito no povo de Deus e na nova igreja dispensacional. Ele foi um evento de uma vez por todas, embora o Espírito continue na igreja para sempre da mesma forma como estava presente com a igreja em Pentecoste.

 

Reavivamentos e a Igreja Instituída

Reavivalistas agem em caminhos biblicamente errôneos por causa do seu desdém pela igreja instituída.

Cristo estabeleceu a igreja instituída no mundo para o único propósito de pregar o evangelho. Não somente é a tarefa da pregação do evangelho dada à igreja como instituição, mas ela é a única instituição no mundo que tem o direito de pregar o evangelho. Pela pregação do evangelho por meio da igreja instituída, Cristo “reúne, defende e preserva” sua igreja. Essa tarefa a igreja realiza por meio de ministros que são enviados, sob a direção dela e que prestam contas a ela. Os reavivamentos foram realizados em sua maioria por pregadores itinerantes, sem qualquer ofício numa igreja, trabalhando inteiramente por conta própria, pregando sem credenciais eclesiásticas, e sem prestar contas a algum corpo eclesiástico. Cristo não trabalha dessa forma.

Os reavivalistas, com sua freqüente indiferença à doutrina, quase sempre são ecumênicos. Eles, à parte de suas próprias crenças, estão dispostos a cooperar com todos e qualquer um, a despeito da heresia e dos ensinos anti-bíblicos. Arminianos, Pelagianos, negadores do batismo infantil – o reavivamento joga tudo isso de lado em prol da restauração da espiritualidade da igreja. Em outras palavras, os reavivalistas crêem que o Espírito Santo, o Espírito a quem Cristo deu à igreja para guiá-la em toda a verdade, não mais se importa sobre a verdade quando ele começa sua obra reavivalista.

Os reavivalistas não buscam a unidade da igreja, mas são divisores em sua obra e frequentemente trazem cisma para a igreja. Esse é um ponto importante na crítica destruidora que Charles Hodge faz dos reavivamentos na introdução ao livro The Constitutional History of the Presbyterian Church [A Histórica Constitucional da Igreja Presbiteriana]. Os reavivalistas condenam a igreja como morta. Eles frequentemente entram nas congregações sem a aprovação dos oficiais e começam a pregar ao povo – se não no próprio edifício da igreja, então em algum lugar apropriado. Eles acusam os ministros de não serem regenerados, se recusarem cooperar com os esforços reavivalistas. E fazem sua obra independentemente da igreja na qual estavam trabalhando.

Frequentemente uma distinção é feita por evangelistas modernos entre pregação na igreja estabelecida e pregação evangelística. Talvez um culto matinal seja para os membros, mas o culto noturno é evangelístico. Mas tal distinção deixa alguém com uma visão truncada do evangelho, e a pregação evangelística não é mais a pregação de todo o conselho de Deus, mas é adequada para criar uma atmosfera condutiva à conversão. A verdadeira pregação não faz tal distinção entre pregação na congregação e alcance dos não-convertidos. Hughes Oliphant Olds, ao discutir a pregação de Clemente de Alexandria, chama a atenção para a pregação de Clemente, que não fazia nenhuma distinção entre pregação na igreja e a assim chamada pregação evangelística:

Nosso sermão [o sermão de Clemente que o autor está comentando, HH] termina chamando todos os que estão presentes ao arrependimento. O pregador suplica que seus ouvintes se arrependam do fundo dos seus corações para que possam ser salvos. O evangelismo não requer uma mensagem especial pregada aos não-convertidos, diferente daquela dirigida aos convertidos, nem demanda que o fiel ouça e entusiasticamente apóie continuamente sermões evangelísticos que não são na verdade dirigidos a ele. Antes, quando Cristo é proclamado como Senhor e Salvador, quando as promessas de Deus são proclamadas e um testemunho é dado que Deus é fiel e que em Cristo aquelas promessas têm sido cumpridas, e ainda serão cumpridas, então o evangelismo é realizado. Sempre que o caminho da vida que Cristo ensinou aos seus discípulos é mostrado como sendo o cumprimento da Lei e dos profetas, então o evangelismo é realizado. Sempre que a beleza e o poder e a alegria completa da santidade são proclamadas e o povo de Deus vê que é isso é algo para eles, o evangelismo é realizado. Quando a pregação cristã é feita da forma como deveria ser feita, então ela é evangelística.

Reavivalismo e Misticismo

Não é surpreendente que os reavivamentos e os encontros carismáticos tenham muitas coisas em comum, pois ambos são místicos. O Misticismo fala da revelação diretamente da parte de Deus para o indivíduo, sem a mediação da Escritura. Wesley cria ter tal contato direto com Deus; Finney também. Como observado num artigo anterior, Finney freqüentemente falava de vozes ou sentimentos interiores que o guiavam no que fazia e para onde ia.

Robert G. Tuttle, ele mesmo um Metodista Wesleyano, aponta em seu livro Mysticism in the Wesleyan Tradition [Misticismo na Tradição Wesleyana] que o misticismo tende a ignorar Jesus Cristo. Isso é compreensível. A Escritura nos diz que Cristo é a revelação de Deus, e quem vê a Cristo vê a Deus também. Jesus diz a Filipe no momento da Última Ceia: “Quem me vê a mim vê o Pai” (João 14:9). Quando os místicos alegam ter contato direto com Deus, como Evan Roberts, o pai do Revivamento Galês de 1904-1905, alegava, e como Finney alegava, eles estão ignorando a Cristo. Ao ignorar Cristo em revelações, é inevitável que tal misticismo ignore Cristo também na oração, na fé e na doutrina. Finney realmente não tinha lugar para Cristo em sua teologia e pregação.

Prof. Hanko é professor emérito de História da Igreja e de Novo Testamento no Protestant Reformed Seminary.

Fonte: Standard Bearer, vol. 82, Issue 12.


1E-mail para contato: [email protected]. Traduzido em agosto/2007. 2Veja o anterior aqui: Charles Grandison Finney: Reavivalista (2)

Para material Reformado adicional em Português, por favor, clique aqui.



Fonte: Covenant Protestant Reformed Church

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