Ireneu de Lyon

Quem foi Ireneu de Lyon e qual sua contribuição para a teologia?

Viveu entre os anos 130-200 d.C.. Vigoroso escritor anti-herético dedicado à fé bíblica, Ireneu, cujo tempo de vida faz a conexão entre a Igreja subapostólica e a antiga Igreja Católica, foi figura central no desenvolvimento da teologia cristã. Oriundo da Ásia Menor, onde havia ouvido Policarpo de Esmirna ensinar, e tornando-se presbítero e depois bispo em Lyon, uniu as tradições teológicas da Ásia e do Ocidente. Tendo contatos constantes com Roma, procurou servir de mediador nas controvérsias pascal (ver Páscoa) e montanista, visando a preservar a unidade da Igreja, importante em sua teologia.

A obra de Ireneu Demonstração da pregação apostólica expõe uma instrução de catequese em conformidade com a história bíblica, apresentando-a como o plano salvador de Deus. Relata uma história literal dos poderosos atos de Deus, a começar pela criação e prosseguindo com os eventos de Gênesis, o pacto mosaico, a tomada da terra prometida, o envio dos profetas, a vinda de Cristo, a pregação dos apóstolos e a ressurreição geral. Aborda o sentido espiritual das Escrituras, mostrando como as profecias do AT constituem testemunhos da preexistência de Cristo, Suas naturezas divina e humana, seu nascimento virginal, seus milagres, paixão, ressurreição e seu chamado de um novo povo por meio dos apóstolos.

A fama principal de Ireneu, no entanto, resulta de sua obra Contra heresias. Os primeiros dois livros dessa obra expõem vários sistemas gnósticos* e oferecem argumentos racionais contra eles. Os livros terceiro ao quinto contêm refutação aos ensinos gnósticos a partir dos escritos dos apóstolos e da Palavra do Senhor. Embora sendo primacialmente um teólogo, Ireneu era instruído em filosofia e empregou recursos retóricos na estruturação de seu tratado.

Pode-se considerar Ireneu como um “teólogo bíblico” por sua ênfase nas Escrituras, na criação, na redenção e na ressurreição, ou um como teólogo do desenvolvimento da tradição católica, devido à sua argumentação quanto a tradição, sucessão apostólica (ver Ministério), importância de Roma e a de Maria como “a nova Eva”. Uma vez que as Escrituras e a tradição* tinham para ele o mesmo conteúdo (i.e., o evangelho), a substância do seu pensamento é a teologia bíblica. Os elementos “católicos” aparecem, basicamente, como argumentos polêmicos contra os gnósticos e a heresia de Marcião. Assim também, as doutrinas que enfatiza são as contestadas pelos hereges.

Ireneu argumentava a existência de unidade nas Escrituras, como a revelação histórica de um “único e mesmo Deus”, que havia firmado diferentes pactos com o ser humano. O AT estava, pois, em harmonia com o NT, embora a lei de Moisés fosse agora substituída pelo evangelho de Cristo. O padrão histórico da revelação são os profetas, Cristo e os apóstolos; mas o conteúdo essencial, do começo ao fim, é Cristo. Considerando que os gnósticos interpretavam a Bíblia de acordo com suas visões míticas da realidade, Ireneu defendeu a interpretação da Bíblia de acordo com “o cânon (a regra) da verdade”. Para isso, elaborou sumários da pregação apostólica, representando o conteúdo próprio das Escrituras. Argumentava que o entendimento correto do ensino apostólico estava preservado nas igrejas que voltavam aos tempos apostólicos e tinham familiaridade com o ensino dos apóstolos (cf. E. Molland, in: JEH 1, 1950, p. 12–28).

Opondo-se às alegações gnósticas de uma tradição secreta transmitida a partir dos apóstolos, Ireneu insistia em negar que estes tivessem designado como bispos e presbíteros crentes a quem teriam revelado supostos segredos. A sucessão na doutrina e na vida cristã, afirmava, era transmitida, em cada igreja, pelo detentor do magistério para o detentor seguinte (e não propriamente pelos que ordenassem, aos ordenados). A consistência do ensino nas igrejas de seu tempo com o ensino dos apóstolos seria assegurada por seu caráter público. Sua correção seria posteriormente garantida por sua concordância em cada localidade. Ireneu contribuiu para a explicação da imagem da Palavra e da Sabedoria de Deus (Cristo e o Espírito Santo) como “as duas mãos de Deus” na Trindade. Essa imagem expressava a ação direta de Deus na criação e na revelação. O Deus único criou todas as coisas do nada. Mas a providência de Deus coexiste com o livre-arbítrio do homem. Adão, por sua vez, foi gerado como se fora criança e, por isso, facilmente enganado ao ser levado ao pecado.

O Filho de Deus, plenamente divino, tornou-se Filho do homem para a salvação humana. A encarnação por meio do nascimento virginal implicou assumir verdadeiramente a carne e reconduzir os passos da humanidade, levando-a à perfeição em si mesmo (recapitulação). Seu contato com cada circunstância da experiência humana santificou todas as eras e condições de vida. A perfeita obediência de Cristo reverteu os efeitos da desobediência do primeiro Adão, o sangue de sua morte trouxe o perdão dos pecados, e sua ressurreição, um triunfo sobre a morte; consequentemente, o Diabo foi derrotado. O batismo, para Ireneu, traz a regeneração e o dom do Espírito Santo. A adição do Espírito Santo à pessoa humana, que consiste em corpo e alma, restaura sua semelhança com Deus, perdida na primeira transgressão. A salvação é realizada progressivamente, é um processo a ser completado somente no final dos tempos. Ao se habituar o Espírito Santo a residir na carne, a pessoa cresce na plenitude da salvação, chegando à comunhão com Deus e à participação na imortalidade.

Além disso, a disponibilidade da graça para todos e a liberdade humana para responder à graça eram pontos importantes do seu argumento contra o gnosticismo. A criatura humana é salva em sua totalidade, incluindo a carne. A escatologia de Ireneu abrange, assim, um reino terreno do Senhor em sua segunda vinda, um mundo material renovado e a ressurreição literal da carne. O reino milenar é a última fase de preparo do homem para a perfeição definitiva segundo a visão de Deus. Os elementos eucarísticos do pão e vinho, por receberem a invocação de Deus, consistem em duas realidades, uma terrena e outra celestial. Os corpos humanos nutridos pelo corpo e sangue de Cristo se tornam capazes da ressurreição e da vida eterna. A Igreja contém o depósito da verdade e nela se encontra o Espírito Santo. Os presbíteros, incluindo os bispos, ao assumir seu magistério recebem o ensino apostólico (o depósito da verdade) para transmitir a outros.

A Igreja de Roma, porque fundada por Pedro e Paulo, era para Ireneu especialmente importante como preservadora da tradição apostólica. Em uma passagem que tem recebido muitas interpretações (Contra heresias III.3.2), Ireneu parece afirmar que todos devam concordar com a Igreja de Roma. Seria Roma um modelo de doutrina sadia, devendo a concordância, assim, ser primordialmente com a sã doutrina preservada por essa igreja e secundariamente pela própria Igreja de Roma como exemplo do ensino apostólico (cf. J. F. McCue em TS 25, 1964, p. 161–196). [1]E. Ferguson, “Ireneu”, in Novo Dicionário de Teologia (São Paulo: Hagnos, 2011), 553–555.

Referências

Referências
1 E. Ferguson, “Ireneu”, in Novo Dicionário de Teologia (São Paulo: Hagnos, 2011), 553–555.
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